Cobertura jornalística do desastre no Japão

Vou utilizar este espaço para comentar um pouco sobre a cobertura que a mídia japonesa e internacional está fazendo sobre o terremoto do dia 11, e consequentes tsunami e acidente nuclear.

A mídia japonesa e internacional (esta inclui o Brasil) têm abordagens claramente distintas sobre o material veiculado sobre os fatos relacionados ao desastre: a japonesa reproduz fielmente os dados oficiais (e somente esses fatos), enquanto a internacional tenta tirar conclusões sobre esses fatos.

O que isso implica? A mídia japonesa é literalmente “refém” dos dados que o governo repassa. Se o governo omitir dados, esses dados com certeza não chegarão à população – e de fato, muitas pessoas reclamam da falta de dados da TEPCO (Companhia de Energia de Tóquio, responsável pela usina de Fukushima). Porém, cabe ao governo controlar os dados divulgados para evitar o pânico generalizado, mas se for necessário, divulgar os que são pertinentes ao bem-estar e saúde da população.

Neste último ponto, parece-me que o trabalho está sendo bem feito. Ao meu ver, se o governo estivesse realmente “escondendo” informações, algumas informações dadas deveriam ter sido omitidas. O que parece que falta é uma previsão para quais os possíveis danos causados que possam acontecer – o que daria margem para especulações.

E com isso vamos para as mídias brasileiras e internacional. O público ocidental tem a necessidade de ouvir essa previsão, ou seja, que lhes digam o que pode acontecer com tudo isso. Consequentemente, a natureza da mídia internacional é especulativa. Isso não seria de todo ruim se os jornalistas tivessem mais expertise sobre a área e/ou escrevessem com mais responsabilidade. Esses últimos dias, eu li coisas como “Japão devastado por tsunami” (não que esteja completamente errado, mas seria interessante informar que foi apenas a parte litorânea do nordeste japonês), “Tóquio está com níveis de radiação x vezes maiores que o normal” (sendo que ainda assim, a radiação é menor que a presente em uma banana), ou até “radiação chegará nos EUA amanhã”, entre outros péssimos exemplos de jornalismo (e mais aqui).

Embora parece que a situação já esteja acalmando, se vocês quiserem ler notícias que eu considero mais confiáveis, leiam de jornais japoneses como Yomiuri, Asahi e Nikkei Shinbun (e de preferência, as versões japonesas). Eu sei que não é muito fácil, mas uma mistura de Google Translate e Rikai-chan deve dar para entender mais ou menos o que eles estão tentando falar. E mais importante ainda: leia um pouco sobre a parte científica do assunto nem que seja na Wikipedia, para que você possa ter uma visão crítica do assunto. Afinal de contas, muitos jornalistas erram localização (o infográfico do site de um certo jornal brasileiro errou a localização de Tóquio em uns 100km), unidades (confundem μSv com mSv, por exemplo), e outros erros mais grosseiros.

Como disse Sir John Beddington, Chefe da Assessoria Científica do Ministério de Defesa do Reino Unido, sobre por que a Embaixada Francesa estavam dando recomendações diferentes que a Inglesa sobre a situação japonesa: “Porque as recomendações deles não são baseadas em Ciência” (o governo francês retirou os franceses do Japão).

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Um pensamento sobre “Cobertura jornalística do desastre no Japão

  1. O último parágrafo é muito divertido.

    Me lembra a frase inglesa “os pretos começam no Calais”, o típico desdem que o inglês tem pelo francês. Parece que continua vivo, apesar de toda a “política correta”.

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