Katakana: Méritos e deméritos

Aviso: Este post é baseado na minha própria opinião. Qualquer coisa que concordar ou discordar com algum ponto, por favor deixe seu parecer nos comentários.

Katakana, para aqueles que não estão familiarizados com o termo, é um dos alfabetos da língua japonesa. Ele é silabárico, ou seja, cada caractere equivale a uma sílaba, e utilizado principalmente para a incorporação de palavras estrangeiras ao idioma japonês (conhecido como gairaigo ou 外来語).

Vamos para os méritos. Primeiro, o simples fato de ser um alfabeto silabárico assim como o Hiragana – você lê exatamente como está escrito, e ao contrário do Hiragana, não existem exceções (como no caso do は e へ). Mais perfeito que ele, só o Hangul coreano, que além de silabárico, cada radical da letra corresponde a um fonema da sílaba.

Outro mérito é que é uma ideia genial poder incorporar palavras de outras línguas na sua própria língua sem sair do seu alfabeto ou fonética. Alguém sabe pronunciar “Eyjafjallajokull” (aquele vulcão islandês)? Fácil, é “エイヤフィヤトラヨークトル”.

Agora para os deméritos. Na verdade, é só um demérito que eu consegui pensar, e ele segue a linha de discussão do pinyin no aprendizado de Mandarim. Pinyin é a romanização da fonética chinesa – e romanização muito mal feita, por sinal. Por exemplo, no pinyin o “b” indica um “p” mais fraco, e o “p” um “p” mais carregado (“cuspido” seria uma palavra melhor). Mas não, o “b” não tem som de “b” de “bola”. E o que isso tem de tão ruim? Um aluno de Mandarim vai associar as letras romanas a sons errados do chinês.

Passamos agora para o caso de quem usa letras romanas. As letras romanas não têm exatamente um som associado – principalmente para palavras estrangeiras. Quando crianças, aprendemos que a leitura de “McDonald’s” em português é “Méqui Dônaldis” (o nosso gairaigo). Mas quando aprendemos inglês, conseguimos associar outra fonética a essa mesma sequência de letras facilmente, uma vez que estamos acostumados a tentar ouvir qual o som certo para uma sequência de letras que não estamos familiarizados.

Passemos agora para o katakana. Ele é sim perfeito para gairaigo. Mas por ser tão perfeito, ele gera uma “preguiça” não-voluntária que impede que os japoneses busquem a fonética certa das palavras quando ouvem – eles escutam a versão em katakana do som. Claro que o fato de a fonética japonesa ser fácil contribui, mas não determina essa dificuldade. Se determinasse, os brasileiros demorariam um século para aprender a falar os dois sons de “th” do inglês (como em “thing” e “think”), que não existem em português.

Quer fazer um teste? Então peça para um japonês falar “I’d do”. O “would” contraído simplesmente não tem fonema – é uma simples pausa, e pausa existe em qualquer língua! Mas dificilmente ele vai conseguir (não vale ele falar “I do”, hein!). Simplesmente porque não existe versão katakana de “I’d do”, e ele não está treinado para repetir sons fora da sua língua. Existe também o teste do “pink” (o “k” mudo final também não existe em português, uma vez que o nosso “c” mudo é falado como “qui”).

Ou seja, basicamente o katakana atrapalha o desenvolvimento da habilidade de aprender a escutar novos sons, o que atrapalha a habilidade de aprender a falar outros sons e, como terrível resultado, tira a confiança dos japoneses de aprender uma nova língua, uma vez que será muito difícil – e até frustrante – para muitos deles.

Observações finais:

  • Estou generalizando nesse post. É óbvio que existem japoneses que falam maravilhas em outras línguas. O ponto principal é como o katakana atrapalha o processo de aprendizado da segunda língua. Não quero de maneira alguma menosprezar a capacidade dos japoneses de aprender uma língua, já que muitos deles têm habilidade de leitura muito boa e escrita razoavelmente boa.
  • Claro também que existem muitos brasileiros e pessoas de outras nacionalidades que não falam “pink” nem “I’d do” direito. Mas o fato é que não-japoneses em geral conseguem aprender a fonética certa em bem menos tempo.
  • Para aqueles que ficaram curiosos com a história do pinyin, uma outra alternativa de método de aprendizado seria o zhuyin. Ele é bem mais difícil de começar a aprender, mas talvez traga melhores resultados a longo prazo.
  • Eu não sei se fico feliz de estar pensando algumas frases em japonês, ou triste de estar esquecendo um pouco do português, mas o título do post, embora faça todo sentido em português, vem de uma expressão bastante usada em japonês. E por sinal, em katakana: merit / demerit (メリット・デメリット).

Referência: Um post de um blog que eu achei quando eu estava procurando opiniões sobre o assunto.

    [Atualizado em 13/07/2010]:

    O katakana também assassina a fonética de língua estrangeiras. Mas não coloquei como demérito do katakana, uma vez que mudar a fonética para palavras estrangeiras incorporadas (ou amplamente utilizadas) na língua é algo normal. “Méqui Dônaldis” também não é nada bonito.

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