O processo seletivo – Primeira fase

O processo seletivo da bolsa de pós-graduação é longo – e bem difícil. Afinal de contas, ela é a bolsa mais prestigiada do Japão e, por sinal, uma das melhores bolsas de estudo que alguém pode encontrar por aí. Então, prepare-se para muito trabalho e dor de cabeça, mas que no fim com certeza vale a pena! Note que o que está escrito aqui se refere ao Consulado de São Paulo, que foi por onde eu prestei.

Tudo se inicia na palestra de apresentação da bolsa, que acontece em Março em alguns lugares no estado de São Paulo (ver no site do Consulado a data e como fazer para se inscrever). No meu caso, foi no Mercure Hotel da Paulista. Não é obrigatório ir para esta palestra, mas ela ajuda a você entender mais sobre o que é a bolsa. Mais ainda, entender o que você deve esperar da bolsa, e o que eles esperam dos bolsistas. Por mais que você já tenho lido e relido o site do Consulado e fóruns, comunidades do Orkut, etc., eu diria que vale a pena comparecer! Nada melhor que você tirar as suas próprias conclusões!

No mês de Abril é quando você deve entregar toda a documentação: histórico escolar, currículo, plano de pesquisa, entre outros. Para a documentação, nunca se esqueça que você deve vender seu peixe, assim como em qualquer entrevista de emprego. Nessa hora, ajuda muito ter uma escola de peso no currículo também. E claro, boas notas!

Dica: O processo seletivo visa selecionar os candidatos de maior potencial para fazer pesquisa no Japão. Ponto.

O plano de pesquisa é uma das partes importantes da documentação. É através dele que a banca examinadora vai determinar se você tem potencial para fazer pesquisa. Deve possuir 6 páginas com espaçamento 1,5, etc etc (ver site do Consulado). Deve conter: introdução, falando o que você quer fazer; estado da arte, que é como estão as pesquisas na sua área (ajuda a justificar a escolha do seu tema, indicando como que ele se encaixa no âmbito da pesquisa global); desenvolvimento (talvez com metodologia de trabalho); conclusão e referências bibliográficas. Ajuda se você colocar algumas referências a autores japoneses, que isso ajuda a justificar o porquê de você escolher o Japão.

Dica: O plano de pesquisa serve apenas para medir seu potencial. Não significa que você vai necessariamente fazer nada disso no Japão, não precisa falar sobre um assunto que vai revolucionar o mundo.

Em Maio acontecem as provas de línguas nos anfiteatros do Biênio da Poli-USP. A prova de inglês é razoavelmente difícil. Cai principalmente gramática, mas se você tem uma base boa, não terá maiores problemas! O que eu pessoalmente acho que é pessoas fluentes tiram de letra, pessoas com inglês avançado conseguem fazer mas com o tempo apertado e pessoas com nível intermediário vão penar bastante.

A prova de japonês é dividida em três partes (até sabe-se-lá-quantos anos atrás, eram três provas. Agora é uma só com três partes): a primeira é para quem tem nível principiante, a segunda para quem tem o básico completo e a terceira para quem tem intermediário completo. Ou seja, algo como níveis 4, 3 e 2 respectivamente do JLPT (o tão famoso Nihongo Noryoku Shiken ou 日本語能力試験, prova de proficiência da língua japonesa). Observem que é maior nota entre as duas provas que conta, então é bom ter uma das duas línguas fluente, e não saber um pouco de cada uma.

Finalmente, se você passou da análise da documentação e da prova (no meu ano, foram 30 de uns 120 que passaram), vem a parte mais difícil do processo: a entrevista.

Ela possui 15 minutos e é feita em português (para quem foi muito bem na prova de japonês, os membros da banca também fazem perguntas em japonês). A banca possui 5 professores doutores de universidades top do Brasil. Prepare-se para falar sobre seu plano de pesquisa, justificando a importância de sua pesquisa e respondendo possíveis dúvidas sobre o conteúdo, sobre seu currículo, sobre sua motivação para ir ao Japão, entre outros. Pesquise sobre seus possíveis orientadores no Japão e tenha em mente que você está concorrendo para uma bolsa que tem como intuito o intercâmbio entre Brasil e Japão, e que você como ex-bolsista tem o dever de auxiliar o progresso do Brasil.

Em geral, passam 14 desses 30. ですから、がんばってください!

Anúncios

11 pensamentos sobre “O processo seletivo – Primeira fase

  1. Parabéns pelo site. Sou estudante de graduação na área de informática. Minha duvida é sobre a justificativa para estudar no japão: Usar referências de autores japoneses é o suficiente? Mesmo para projeto de pesquisa simples que não ira revolucionar o mundo..?. Alguma dica?

    • Na verdade, o projeto de pesquisa como um todo serve para a banca avaliar seu potencial como pesquisador. Então logicamente que você falar que existe pesquisa relevante na sua área no Japão e que você quer ir para o laboratório que faz essa pesquisa ajuda bastante. E além disso, isso também mostra que você já procurou possíveis labs (mostra interesse da sua parte e mostra que vc tem conhecimento de como é a pesquisa da área, onde é feito pesquisa relevante, etc).

      Um erro que muitas pessoas cometem é achar que o plano de pesquisa tem que ser de algo que revolucione o mundo. Não precisa ser tudo isso, até porque (1) aspirantes a mestrado e a alguns a doutorado não desenvolveram ainda visão o suficiente para saber o que realmente pode revolucionar o mundo e (2) um trabalho que revoluciona o mundo não cabe num mestrado/doutorado. O melhor para um plano de pesquisa é tentar focar sobre um problema específico que vc queira estudar.

  2. Oi tenho uma duvida. Eu sou de uma faculdade particular a Estacio de Sa. Será que mesmo não vindo de uma faculdade de renome posso conseguir a bolsa?

    • Nao sei se vc foi a mesma pessoa que perguntou no Youtube, mas eu estou respondendo aqui também por via das dúvidas:

      O renome da sua faculdade não é um fator de exclusão no processo seletivo da bolsa de estudos. Claro que ter uma faculdade de renome ajuda, mas se vc tiver um plano de pesquisa bom e conseguir mostrar para a banca que vc tem potencial para se tornar uma boa pesquisadora, vc conseguira a bolsa. Eu conheco pessoas que foram aprovadas sem terem vindo de universidades publicas, mas no caso delas (assim como no caso de todos as pessoas que passam no processo), o plano de pesquisa foi relevante para a area e foi bem estruturado sobre a teoria existente, por exemplo.

      • Muito obrigada Kenji. Você tirou um peso enorme de mim.
        E sim, eu postei a mesma dúvida no youtube. É que eu não sabia qual vc acessava com mais frequência então coloquei nos dois.
        Mas voltando para o tema, como vc tisse, tudo depende mais tanto meu projeto quanto da minha habilidade como pesquisadora.
        Agora que eu me lembrei vc tinha postado uma vez que as faculdades públicas são as que dão a melhor base em pesquisa, então por isso quem estuda nelas tem mais chances de conseguir a bolsa. Não pelo nome da faculdade mas sim por já te uma base solida como pesquisador.

        Sendo assim, eu só tenho que correr atrás. Tenho que me esforçar mas no meu projeto. Além de desenvolver melhor meu inglês e meu japonês.

        Ah, já ia me esquecendo a garota que aparece no vídeo do youtube é a sua noiva Eli, não é?
        Ela é muito fofa. Vcs dois juntos no videos são muito fofos. ^-^

        Muito obrigada e desculta pelo tamanho desse post, Kenji.

      • É mais ou menos isso mesmo: as públicas em geral dão uma base melhor (tanto teórica quanto o próprio meio, já que as universidades públicas têm pesquisa mais forte, o que acaba refletindo na graduação também). Mas de qualquer forma, nada impede que pessoas de faculdades particulares não possam desenvolver pesquisa boa.

        Ela é a Elis sim, mas ela já é minha esposa! A gente se casou ano retrasado!

        Bem, precisando de qualquer coisa, só avisar!

  3. Olá André! Procurando por mais informações sobre a bolsa de pós graduação do MEXT acabei encontrando seu blog, que está me ajudando bastante a tirar minhas dúvidas sobre a vida aí no Japão.
    Tenho bastante interesse em prestar a prova do MEXT para o mestrado no ano que vem, e provavelmente para uma área similar à sua (engenharia). Queria te perguntar mais especificamente sobre o projeto de pesquisa, que é o documento mais difícil de se preparar nessa primeira fase. Como você o redigiu – usou referências de IC/TCC passados, ou criou sua própria ideia? Como fazer quando eu tenho uma ideia bem global do que quero trabalhar (por exemplo, algoritmos inteligentes aplicados a robótica) mas não consigo desenvolver um projeto em particular focado nesta área?
    Obrigado desde já pela ajuda, e parabéns pelo blog!

    • Na verdade, como a área que eu quis fazer pesquisa era diferente do meu Projeto de Formatura, eu tive que criar minha própria ideia. Mas em geral, você não precisa de um projeto muito focado (até porque são grandes as chances de você não desenvolver ele quando estiver no Japão); pode ser algo mais genérico, mas menos que “algoritmos inteligentes aplicados a robótica”. Por exemplo, no meu departamento existem estudantes que fazem pesquisa de algoritmos de visão computacional para ajudar um robô a identificar uma maçaneta de porta.

      O interessante de qualquer forma seria usar referências para mostrar como está a situação da pesquisa global de uma determinada área, e usar isso para argumentar que a pesquisa que você está propondo é interessante – nesse ponto, a banca não vai avaliar diretamente o que você está propondo, e sim se você sabe mostrar o estado-da-arte, argumentar um ponto de interesse de pesquisa, etc.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s